A porta do Crivella não está meio apertada no Rio? “Se a porta estiver apertada, é mais uma razão para que ela o leve à glória. A porta estreita é para quem sabe. A porta estreita conduz à vitória.” José Alencar

Rio – As bochechas rosadas voltaram ao rosto do vice-presidente José Alencar (PRB-MG), 78 anos, que comove o Brasil com sua corajosa e perseverante luta contra um câncer na região abdominal. Ao contrário de muitos políticos, ele não esconde a doença e o feroz tratamento a que é submetido. Encara tudo com serenidade. “O desespero não ajuda”, pondera ele, que passou por exames esta semana para avaliar a quimioterapia. Segundo os médicos, sua reação é excepcional.

Em tratamento contra o câncer,  descoberto em 2006, José Alencar  não esmorece: ‘O escoteiro sorri na  adversidade’. Foto: Fernando Souza /  Agência O Dia
Em tratamento contra o câncer, descoberto em 2006, José Alencar não esmorece: ‘O escoteiro sorri na adversidade’. Foto: Fernando Souza Agência O Dia

Quinta-feira, dia seguinte à passeata que levou 150 mil pessoas às ruas no protesto em defesa dos royalties do estado, esse mineiro da Zona da Mata recebeu O DIA para uma conversa em sua casa no Rio e não fez rodeio:

“Não se pode tirar o que os estados têm previsto nos seus orçamentos. Isso não pode acontecer e não vai”.

E também garantiu: “O senador (Marcelo) Crivella é o candidato de Lula ao Senado no Rio”.


O DIA: Como o senhor avalia o Governo Lula depois de quase oito anos?
José Alencar:
O Governo Lula é um governo espetacular. Coisas que ele faz, eu não esperava. Pensava que o conhecia bem e não o conhecia. O que ele faz com as relações internacionais, nunca houve um presidente que fizesse. O Brasil hoje é um país conhecido e respeitado no mundo inteiro. Ele conseguiu construir uma imagem muito boa do Brasil. E internamente tem demonstrado ser o que sempre foi: um homem com sensibilidade social. A preocupação dele com a recuperação do poder de compra da sociedade residiu em dois aspectos fundamentais. O primeiro deles é o cuidado com o controle da inflação. Paralelamente a isso, ele procurou aumentar de forma real o salário das pessoas.

Escute parte da entrevista


Para o empresário José Alencar, esses oito anos também foram bons?

Só de se falar em moeda estável, é uma grande coisa para o País. A única coisa que perturba muito as exportações hoje é o câmbio. Porém, a política cambial, flutuante, é a correta. Mas era preciso que todos os países adotassem também. Como não acontece, se dá uma concorrência desigual. A China, por exemplo, pratica o câmbio que lhe favorece.

Depois de oito anos, o que o senhor acha que faltou?
Cada governo que começa encontra muita coisa por fazer.

Que avaliação o senhor faz da questão do saneamento?
Você tem que voltar ao passado para explicar o presente e o futuro. No período de 1950, Juscelino foi eleito governador de Minas. Depois, começou a fazer um trabalho para ser candidato do PSB à Presidência da República. E foi. O slogan era “energia e transporte”. Pois bem, hoje eu digo que um candidato deveria abraçar um quinteto: educação, saúde, saneamento, energia e transporte. Energia e transporte continuam sendo a preocupação do Brasil. Ou nós preparamos a infraestrutura brasileira para crescer ou nós teremos um gargalo intransponível. Isso é um fato. Têm que ser mantidas como prioridade absoluta do governo energia e transporte. Porém, não podemos de forma alguma deixar de compreender uma coisa: a preparação de nossos recursos humanos. Nós somos 200 milhões de brasileiros. Se esses brasileiros estiverem preparados para o trabalho, com conhecimento, o País se multiplica, porque o potencial é muito grande. E a preparação dos recursos humanos se faz com a educação e saúde. Acrescento saneamento ainda que seja saúde preventiva. São obras de investimento importantíssimas e que precisam ser feitas. A verdade é essa. Em 1942, foi criado o Senai para formação de mão de obra. Hoje evoluiu e está ensinando crianças. Se tivéssemos várias instituições como o Senai, nós iríamos mais longe. Se não prepararmos recursos humanos, também não se chega lá.

Essas cinco áreas que o senhor citou como fundamentais já são sua plataforma de candidato?
Eu, se fosse candidato a presidente da República, teria essa como minha plataforma. Como não sou, vou tentar fazer com que a Dilma (ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, candidata a presidente) adote esse slogan.
Estou tentando perguntar de jeito mineiro se o senhor será candidato ao Senado ou não.

Eu não sou candidato meu mesmo a nada. Já fui. Em 1994, quando disputei a política, ganhei uma convenção impossível de ser ganha. Eu ganhei. Só que o partido saiu desunido e eu perdi a eleição. Naquele tempo, eu falei que nunca mais seria candidato meu mesmo. Em 98, eles foram me buscar para ser candidato ao Senado. Era um suicídio na época. O pessoal exigiu que eu fosse. Eu fui e ganhei a eleição.

Mas e agora?
Agora é o seguinte: eu não sou candidato. Se, por ventura, minha candidatura for exigida para resolver problemas do meu estado ou do meu País, eu sou um soldado. Eu posso examinar. Mas tem que ser exigida.

O senhor enfrenta um tratamento de saúde bastante agressivo e com muita coragem. De onde o senhor tira essa coragem que tem comovido o País?
Não é coragem. Às vezes você não tem opção. O médico chega, mostra os resultados dos exames, diz que você tem um tumor maligno e que o caminho é a cirurgia. Então, vamos à cirurgia. Papai era um homem muito simples e ensinava uma coisa sábia. Ele dizia: meu filho, o desespero não ajuda. Na dificuldade você tem que ter absoluta serenidade para tomar uma decisão. Não é coragem, não. É serenidade.

Já houve vezes de o senhor ter que acalmar seus parentes com essa serenidade?
A minha mulher (Dona Mariza) tem muita fé. Ela não admite que eu não esteja curado. Ela tem certeza absoluta, ela fala assim. Mas eu não posso falar que estou curado. Posso falar que o tratamento tem sido um sucesso absoluto. O tumor está definhando, está desaparecendo, está sumindo, está correndo de nós. Nós estamos brigando com ele. Mas não estamos brigando com raiva. Quem briga com raiva apanha.

Mas cada pessoa reage de uma forma. Por que o senhor optou por tornar pública a doença?
Eu fui escoteiro. O fundador, Baden-Powell, ensinava determinadas coisas. O escoteiro sorri na desventura. Isso é um ensinamento, ensina a serenidade. Não é fácil.

A questão de saúde já permite ao senhor enfrentar outra campanha?
A saúde não me preocupa. Estou em condições de fazer qualquer campanha. Eu sempre falei, eu não tenho medo da morte. Nós todos vamos morrer. Isso faz parte da vida de cada um de nós. Quando será, só Deus é Quem sabe. Se quiser me levar, Ele não precisa de câncer para isso. Se Ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve. Eu estou desconfiado que Ele não quer me levar por enquanto.

O senhor enfrentou duas eleições para a Presidência da República e pouco depois apareceu o último diagnóstico de câncer…
Esse tal sarcoma do retroperitôneo (parte posterior do abdome) apareceu em julho de 2006. Eu fui operado em 18 de julho, no meio da campanha. Eu liguei pro Lula e falei: ‘Arranja outro candidato que eu vou ser operado e é um tumor violento, difícil. Os médicos já me explicaram que ele tem a característica de voltar”. E ele voltou. Terminado o segundo turno, fui para São Paulo e amanheci no Hospital Sírio e Libanês. Foram feitos exames e o tumor tinha voltado. Não no mesmo ponto, mas na mesma região. Então, me falaram que um médico famoso dos EUA era o maior especialista. Mandamos os exames com as imagens. Ele disse que poderia me operar. Veio me operar em São Paulo, em 30 de outubro de 2007. Em 20 de dezembro, 50 dias depois, o tumor havia voltado. Ele falou: “Nós é que temos que ficar preocupados se o senhor não ficar bom”.

O senhor acha que sua coragem de enfrentar o tratamento e campanhas eleitorais podem servir de inspiração para a ministra Dilma, que também enfrentou um câncer e agora vai partir para uma longa campanha eleitoral? A ministra está curada. É porque o médico não usa essa palavra. Até porque pode parecer que a pessoa não vai morrer. Mas o meu caso não é o mesmo da Dilma. O dela é muito mais simples. Ela está curada, não há problema nenhum.

Por que o senhor defende o voto na ministra Dilma?
Por uma coisa muito simples: sou muito a favor de uma certa garantia de continuidade dos rumos do governo, que são todos muito bons. São intransigentes com o equilíbrio orçamentário, intransigência contra a inflação. Para quem tem salário fixo, a inflação é um desastre. Vivemos um período no Brasil em que, em uma semana, o salário já estava defasado. Isso não pode nunca mais acontecer. Paralelamente, tem que haver crescimento que possa ser sustentado do ponto de vista ambiental, como também em seu patamar. Então eu acho que a Dilma oferece uma garantia natural de tudo aquilo que deu certo no Governo Lula. Como chefe da Casa Civil, ela é uma superintendente. Ela é dedicada, é trabalhadora e é séria. E mais: não toma decisões sem informação. Ela trabalha muito.

O senhor deu estabilidade à chapa do presidente Lula. Quem o senhor acha que dará essa garantia na chapa da ministra Dilma?
Em primeiro lugar, o próprio Lula. Quem dá a maior garantia e fortalecimento à chapa e à vitória é o presidente Lula. Por mais conhecida que ela fosse, ela ainda não o era suficiente para uma candidatura à Presidência da República. A não ser com o apoio e o prestígio do presidente Lula. Em primeiro lugar tem isso aí.

O senhor falou sobre o que deu certo no Governo Lula. O vice-presidente foi um dos pontos. Quem pode ser o José Alencar da Dilma?
Isso também tem que ter sorte. Eu costumo dizer: quando aceitei ser vice, pensei muito antes. Cheguei à conclusão de que deveria aceitar, com uma intenção, a de não atrapalhar. Procurei provar às classes produtoras que não há antagonismo entre empregador e empregado. Ele era uma grande liderança sindical dos trabalhadores, e eu era uma liderança dos empregadores. Então era um empregador com um trabalhador. Isso só podia fortalecer.

Mas o PMDB de vez em quando não atrapalha?
Eu sou suspeito para falar do PMDB. Foi o meu primeiro partido. Eu tenho muita amizade e respeito pelas pessoas, especialmente àquelas que foram meus primeiros companheiros de partido.

Mas o senhor acha que a decisão tem que ser do PMDB ou da ministra?
A decisão não pode ser dita por mim. É pessoal do candidato à presidência. Ninguém vota no vice. Vota no titular. Ela tem que ver na rotina quem pode ajudá-la. Tem que ser alguém de absoluta confiança para ajudá-la. E também de quem tenha voto. O ideal é candidato que tenha voto, comportamento e condição de ser útil no governo, de confiança absoluta durante o governo. Ele viaja e nunca tivemos conversa sobre combinação. Ele mesmo fala isso. Nunca combinou nada e nunca perdeu um minuto de sono. Se houver aliança com o PMDB, é muito bom: tem grande tempo de televisão, está presente em todos os estados. Há vários nomes. Como mineiro, preferia que fosse um mineiro.

Mas a decisão é da Dilma?
A decisão é da Dilma.

O senhor é do partido do senador Marcelo Crivella. Aqui no Rio, a aliança para o Senado é com um candidato do PMDB e outro do PT. O senador Crivella poderá ficar prejudicado?


O nosso partido é o PRB e nós estamos com Lula.Ao lado do PCdoB, foi o único que fez a aliança nacional em 2006. E no tempo da verticalização, que dificultava as alianças. Nós continuamos firmes. Muita gente fala: ‘Zé Alencar é do PRB, então é da Igreja Universal’. Não. Eu sou católico, apostólico, romano. Agora, antes de ser católico, sou cristão. Todas as igrejas evangélicas são cristãs. Li um texto da Bíblia aos 17 anos e sei de cor até hoje.

Qual é?

É um trecho do Sermão da Montanha. ‘Entrai pela porta estreita. Larga é a porta que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. Porque estreita é a porta e apertada é a estrada que conduz à vida e poucos são os que acertam ela’. Quando rezo o Pai-Nosso, lembro demais do papai. Especialmente no trecho que fala: “Seja feita a Sua vontade”. Isso dá coragem a qualquer cidadão. Acreditar em Deus é a maior razão da coragem.

A porta do Crivella não está meio apertada no Rio?
Se a porta estiver apertada, é mais uma  razão para que ela o leve à glória.

A porta estreita é para quem sabe. A porta estreita conduz à vitória.

Mas ele pode contar com o apoio do presidente Lula?
O presidente já me falou com certeza absoluta que seu candidato a senador no Rio é o senador Crivella. E foi muito bem escolhido porque ele é um homem de bem, como cidadão, pai de família, homem que tem cultura muito ampla. Ele representa muito bem o Rio.

Mas ele está sem apoio de candidato a governador.
Nós estamos ainda numa fase de arranjos partidários, mas ele tem o apoio do Lula.
Ele não está trabalhando sozinho, não. Ele tem o meu apoio também.

O senhor chegou essa semana ao Rio no auge da manifestação em defesa dos royalties do Rio (quarta-feira). O senhor acha que a Emenda Ibsen desequilibra o pacto federativo?

Não se pode tratar dessa questão de outra forma a não ser colocando o assunto sobre a mesa. E ele está sobre a mesa. A Constituição prevê que, além do subsolo ser um bem da União, os resultados contemplem os estados produtores. Então essa solução vai ser encontrada com o diálogo. Se é um bem da União, tem que contemplar todos os estados da Federação. Mas não se pode retirar abruptamente o que os estados têm previsto no seu orçamento para as realizações na frente. Isso não pode acontecer de forma alguma e não vai acontecer. Agora vai ser discutido na esfera do Senado, com mais calma. No Brasil, ninguém é contra o Rio de Janeiro. O Rio é a capital do coração de todos os brasileiros. Todos gostam do Rio. O brasileiro que não tem ligação com o Rio é menos brasileiro. Todos gostam do Rio e ninguém quer prejudicar os brasileiros.

O senhor acha que os direitos do Rio precisam ser garantidos?
Os compromissos do Rio são legítimos e foram embasados em um regime vigente.

O senhor conversou com o presidente sobre isso?
Não necessariamente, não. Para chegar à Presidência, isso demora. E o melhor é que seja levado para depois da eleição. É conversa demorada. Não é para tratar ao telefone.

Após 8 anos, sua relação com o presidente mudou?
Não mudou nada. Nós fizemos a campanha separados. Nunca combinamos nada no governo. Ele fala que nunca perdeu um minuto de sono nessas viagens todas que já fez.

O senhor recebe muitas mensagens de apoio?
Outro dia, fui fazer exames no hospital (quarta-feira) e quando entrei, pacientes, famílias, todos estavam batendo palmas e estendendo a mão para me cumprimentar. Eu fico emocionado. Isso é por toda a parte por onde eu ando. É uma manifestação só.

No momento em que temos desgaste da classe política, qual a sensação de ser uma pessoa pela qual a população tem carinho?
Essas manifestações têm, principalmente, um cunho de solidariedade no câncer. A solidariedade nacional com o vice-presidente que está atravessando uma fase difícil de lutar contra o câncer. Eu tenho que ter humildade para compreender isso. Se não, esse negócio me sobe a cabeça e eu não estou acostumado com isso. O que eu recebo de carta, receita, garrafadas, ervas e fotografias… É uma coisa fantástica.

O que anima o senhor a ser candidato aos 78 anos?
Eu sou soldado. Tenho experiência muito grande no setor privado. Fui senador, tenho experiência no Legislativo. Há quase oito anos sou vice-presidente, tenho experiência no Executivo. Se ganhar eleição agora, eu preciso exercer com dedicação o mandato. Para mim, o mais adequado é um cargo no Legislativo. Mas eu não sou candidato. Mas, como soldado, não aceito examinar, se vier uma exigência dos companheiros todos, qualquer outra opção.

Quando o senhor fala Executivo, é o governo de Minas Gerais?
Não. Seria Executivo. O meu partido é teimoso. Ele me dá legenda para qualquer coisa.

Mas é para presidente?
É Executivo. Para aí. Se não, estaria eliminando alguma coisa que não pode ser eliminada por mim. Não se sabe o dia de amanhã.

O DIA ONLINE

Reportagem Eliane Gaglianone e Fernando Molica

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